O Mundo Rural na minha Juventude

MARP
A mulher rural

Nunca é demais lembrar que diversos povos com varias línguas, inventavam e cultivavam costumes e tradições, para melhor sobreviver às adversidades praticadas algumas pelo homem e outras pela natureza. É sabido que alguns através das armas e da fome dominaram e dizimaram populações em todo o planeta.

Retrocedendo um pouco na história de Portugal, todos sabemos que a exploração do homem pelo homem, foi exercida por uma pequena elite, em que a maioria das populações, como em todo o nosso planeta, eram humilhadas e escravizadas, especialmente as mulheres rurais.

Quando o rei de Leão e Castela entregou o condado de Guimarães ao Conde D. Henrique que veio a morrer ainda muito novo deixou um filho, Afonso, que veio a ser o primeiro rei de Portugal. Ainda de tenra idade, aconselhado pelos seus educadores, declarou guerra à sua mãe com o fim de lhe retirar o poder, pela simples razão de ser uma mulher nova e querer voltar a casar. Ganhando a guerra, coroado de rei e auxiliado pela religião, formou um exército que foi conquistando povo após povo até chegar a Lisboa. Ali chegando fez um acordo, segundo reza a história, com os Mouros, de que para lá do Tejo não avançaria. De facto não avançou, mas deu ordem a um dos seus comandantes de nome Gonçalo Gonçalves, que acabou por conquistar todo o Alentejo, matando e esquartejando mulheres e crianças, daí ter sido chamado com o cognome de “O Sem Pavor”.

Mas vamos aos costumes e tradições das “gentes” da Beira Alta. Com o rei D. Afonso Henriques, instalado na capital, Lisboa, as leis eram decretadas por ele mas quem as administrava no país era o clero e a nobreza, a quem o rei tinha doado todas as terras produtivas á excepção dos baldios.

Neste texto, a partir de agora, vou apenas relatar os usos, costumes e tradições dos povos das aldeias de Portugal, usando como exemplo, apenas a aldeia de Nespereira – Gouveia, situada na parte Norte da encosta da serra da Estrela. Todas as terras agrícolas dentro do limite da aldeia eram pertença de algumas grandes famílias: a das Casas do Rio que ainda hoje consta pelo edifício ali instalado, designado como casa mãe de Nespereira; a família Osório, vinda da região de Andaluzia, eram também donos de uma parte de Nespereira (e até do concelho de Gouveia); a família Portugal, Quinta do Passo doada pelo Rei ao general João de Melo Freire com o alcunho João dos Púcaros e ainda a Quinta D. João.

Tal como em Nespereira, a nobreza era dona da maior parte das terras dos Distritos de Coimbra, Guarda e Viseu, melhor dizendo de todo o país e cobrava impostos, citando apenas alguns nomes como: Visconde do Ervedal da Beira onde está sepultado dentro da sua mansão e os Condes de Caria donos da maior parte do país a quem pertenceu outrora os edifícios da Câmara de Gouveia.

Meu avô, José Marques Machado e o filho, meu pai, Manuel Marques Machado foram agricultores rendeiros da quinta da Regada em Nespereira, propriedade de um irmão do Velho Conde de Caria, Conde de Vinhó e Almedina de nome António. As rendas, pelo cultivo das terras, eram pagas em cereais, duzentos e oitenta alqueires de milho, dez alqueires de feijão e nove mil reis em dinheiro. Cereais que eram entregues em Gouveia onde hoje funciona o Museu Abel Manta.

O que me levou a escrever este texto foi, e é, as nossas origens, de um povo anónimo, subjugado e escravizado por toda esta gente a que atrás me referi. Mas o seu saber e suas tradições conseguiram resistir a todas as adversidades, em tempos em que nem sequer tinham dinheiro nas suas mãos.

Grupos de casais e familiares, juntavam-se para executar os trabalhos agrícolas, sem que para isso recebessem qualquer verba, apenas a comida e a bebida que foi uma das tradições que os povos de todos os continentes em especial de Portugal, para puder resistir que ainda hoje perdura em famílias, juntando-se para trabalhar, ajudando-se uns aos outros. Tudo isto aconteceu ainda na minha geração, nos anos 20, 30 e 40, o meu pai e os 4 filhos juntavam-se aos filhos do meu tio, José marques Machado, especialmente nas épocas de ceifas, malhas e sementeiras, sem qualquer retribuição apenas pela comida e bebida porque não havia dinheiro para pagamentos. Esta tradição milenar existia não só em Portugal independente como na denominada Península-Hispânico-Ibérica.

Como na região da Beira Alta existia muita mão-de-obra, havia grupos de jovens, mulheres e homens, que eram contratados. Dirigiam para o sul do país e durante seis meses trabalhavam nas terras dos senhores da nobreza em especial Ribatejo e Alentejo.

Nos anos 50 a 60, do século passado, ainda tive contacto com um desses grupos nas quintas do Sr. Visconde de Aceca que era também vice governador do Banco Nacional Ultramarino e presidente da Câmara Municipal de Sintra. Numa das suas quintas em Cadafais – Carregado, onde os grupos de trabalhadores da Beira trabalhavam e permaneciam ali dia e noite. Para as mulheres existia uma caserna e para os homens outra, a quinta fornecia-lhes toda a alimentação que eles próprios pagavam em desconto do que iriam receber ao fim dos 6 meses de trabalho. Durante vários séculos, isto acontecia todos os anos no período de 6 meses. Aos serões as jovens faziam meias e rendas que aplicavam e usavam nas suas vestes íntimas. Ao fim desse período de trabalho regressavam a pé às suas terras cantando e dançando canções que eles próprios inventavam, letra e música. Gostaria de referir o refrão de uma dessas canções, que ainda hoje faz parte do repertório do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Nespereira.

Segue-se o refrão das raparigas que iniciavam a canção:

Vamos subindo ao Norte
Caminhos da nossa Aldeia
Mostrando as nossas rendas
E a nossa fina meia

Seguido do refrão dos rapazes em resposta às raparigas:

Também o nosso calção
O nosso pé delicado
E o nosso corpo bem feito
Que por vós é desejado.

Durante séculos os trabalhadores e trabalhadoras rurais trabalhavam apenas e só nas terras senhoriais. Juntavam-se antes do nascer do sol, pois trabalhava-se de sol a sol e eram “escolhidos” no largo do cruzeiro, hoje denominado por largo do pipo, no início pelos senhores feudais e mais tarde pelos feitores. Os “escolhidos” davam um passo em frente e eram sempre os mais jovens, pois estes tinham maior resistência. Os mais idosos ficavam tristes por não terem direito ao trabalho, então regressavam a casa com as suas ferramentas e cheios de fome.

As jovens filhas dos trabalhadores rurais, muitas eram escolhidas para trabalhar diariamente e outras mensalmente, umas nos campos e outras em casa servindo esses senhores. Lindas como amores perfeitos eram quase sempre assediadas sexualmente e as que resistiam eram despedidas. Outras eram violadas e quando engravidavam mandavam-nas para casa dos seus pais com os filhos nos braços, que depois eram registados apenas e só com o nome da mãe com a designação de pai incógnito. As mulheres não tinham nenhuns direitos, apenas e só deveres de obedecer aos homens e consideradas como reprodutoras, tudo isto foram tradições do passado.

O clero dava instruções aos padres de cada freguesia e era a igreja que fazia o registo de todos os nascimentos. As crianças do sexo masculino tinham direito ao sobrenome do pai, as do sexo feminino não. Até aos anos 20 do século passado as mulheres da aldeia de Nespereira, mais de 90%, tinham como sobrenome - Jesus.

Uma das tradições rurais no interior de serra da Estrela era a transumância de pessoas e animais. Nos denominados Casais de Folgosinho existiam populações que a partir dos fins de Outubro se juntavam em reunião, junto á capela da Srª Asse Dasse, os pastores decidiam juntar os rebanhos dois a dois e com os filhos mais velhos, uns decidiam descer as margens do Douro, outros as margens do Mondego e ainda outros as margens do Zêzere, porque toda a região da serra ficava coberta de neve durante quatro meses. Os pastores ofereciam o leite dos seus rebanhos aos proprietários das margens dos rios como pagamento pelas pastagens para os animais. Além das pastagens, alguns também davam alimento aos pastores. Nos princípios desta tradição as populações locais das margens dos rios não sabiam fabricar o queijo, eram os próprios pastores que o faziam e o entregavam a quem os alimentava e acabaram por ensinar estas pessoas o conhecimento de saber-fazer o queijo. No final dos 4 meses e de regresso a casa, voltavam pelas mesmas pastagens e todos os anos estas viagens se repetiam, estabelecendo laços familiares com os proprietários das pastagens. Foi uma tradição milenar muito antes da nacionalidade, que acabou nos anos 30, por força das alterações climáticas, fazendo-se apenas do interior da serra para outra localidades, já não por todos os pastores. Estes atravessavam a serra, no Concelho de Gouveia, com os seus animais e permaneciam durante 2 meses no sopé da serra.

Na Quinta da Regada que atrás citei, arrendada aos meus pais, permanecia um pastor com o seu rebanho cerca de 2 meses, dos anos 20 e 30 aos anos 50, de nome José dos Reis e alcunha Ti Zé Cagátas que no final de Abril regressava aos Casais da Castanheira.

No interior da serra viveram durante séculos, alguns até aos dias de hoje como os Brazetes, os Cantarinhas, os Tentes, os Bentos e os Juízes, todos vivendo da pastorícia e do cereal – centeio, em casas, construídas por eles, cobertas de colmo que era palha de centeio. Esta tradição acabou definitivamente nos anos 50 e 60 do século passado.

Apesar das transformações da sociedade nos últimos 100 anos a mulher continua a ser descriminada, embora as leis condenem a descriminação, a igualdade de direitos entre homens e mulheres só existe no papel, veja-se o comportamento de alguns empresários que ao saber de alguma trabalhadora está grávida, tudo fazem para a despedir do seu posto de trabalho, a isto eu classifico-os de criminosos e comparando-os com os nobres dos século 16 a 19 que procediam de igual modo.

Coloco uma questão a estes senhores empresários. Que tipo de sociedade querem criar, a digital e a robótica e quem vai utilizar todos esses produtos que os robôs vão fabricar se não ajudam as mulheres a procriar e a criar a futura sociedade?

Porque este meu texto já aborda muito da temática da velha e nova sociedade, que pode pôr muito intelectual no amanhã. Vou terminar, alguém lhe chamará poema, ou não, com as seguintes frases:

As filhas dos trabalhadores rurais Faces e lábios rosados
Eram jovens de encantar.
Sempre assediadas sexualmente pelos patrões
Onde trabalhavam,
Mesmo tristes no trabalho cantavam
Com vontade de chorar!

Este texto foi escrito pelo agricultor António Machado no ano em que completou 89 anos.

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