A Ruralidade do Cante

MARP
O Cante Alentejano

Terá o cante alguma ligação à ruralidade?

Iremos, argumentar tentando responder à questão.

O cante é uma forma singular, peculiar mas também complexa de utilizar a voz cantando. Quando surgiu, dizem aqueles que o testemunharam que era uma forma, que os trabalhadores do campo, utilizavam, homens e mulheres, esquecerem o longo tempo de trabalho, as dores do corpo, o calor do verão e o frio do inverno, quando no campo exerciam a sua atividade, fosse mondando, fosse ceifando, fosse lavrando, ou mesmo quando guardavam o gado.

Usavam essa forma de se exprimirem, quando para o trabalho se deslocavam a pé antes do nascer do sol e faziam igual quando acabavam o dia de jorna, já depois do sol desaparecer no horizonte, e voltavam ás suas casas ou ao local de dormitório.

Alguns ainda na volta e á noitinha passavam pela taberna e enquanto bebiam um copo, pois o dinheiro no bolso não chegava para mais, cantavam a sua moda, com voz entoada, de tons graves e agudos, acertando tempos e melodia nessa forma de cantar singular.

As mulheres, que estavam impedidas de passar na taberna, era durante os bailes que utilizavam a voz cantando cantigas de amores e desamores.

Essa forma de cultura que o povo alentejano transportou e ainda transporta, fê-lo de forma espontânea, começou a perder seguidores quando na década de sessenta do século passado, a agricultura começou a ser mecanizada, e esses ativos do mundo rural, procuraram noutros locais o seu sustento, começou a migração para Lisboa e arredores e o Estado Novo, teve de abrir portas à emigração.

Começou com os que exerciam outras atividades como pedreiros, sapateiros, alfaiates alargando nos meados da década de sessenta aos restantes trabalhadores pois a mecanização da agricultura estava em desenvolvimento e a industria não procurava o Alentejo para se instalar.

Com a chegada da revolução de Abril e a chegada do Poder Local Democrático, tentou-se reanimar, o cante, criando associações de cantadores e cantadeiras tentando preservar essa cultura, agora de forma organizada.

O 25 de Abril criou expetativas de desenvolvimento económico e fez regressar muitos daqueles que tinham migrado e emigrado, mas o sonho da Reforma Agrária não se transformou em realidade e passados poucos anos aqueles que tinham regressado tornaram a procurar outros sonhos noutras paragens.

Os grupos corais entretanto constituídos, foram perdendo elementos, uns porque foram para outras paragens outros porque a lei da vida não perdoa, pois tudo o que nasce um dia morre.

Contudo, a resistência de alguns conseguiu que esta forma peculiar de cultura fosse declarada Património Imaterial da Humanidade e talvez se consiga, salvaguardar o nosso cante para que os vindouros o possam prosseguir cantando.

E voltamos ao principio será que o Cante, depende da ruralidade, ou antes é uma característica dessa ruralidade.

O certo é que o Cante já consegue estar em palcos onde antes não entrava, mas em contrapartida deixou de ser a voz dos trabalhadores do campo, pois esses cada vez são menos e muitos dos ranchos que no Alentejo, vimos em trabalhos sazonais falam outro idioma ou dialeto, que não o alentejano.

Se o mundo rural for dinamizado, se a desertificação não persistir, poderemos continuar a ouvir o cante, não na monda ou na ceifa, mas em outros palcos onde a assistência, que poderá não ser de alentejanos, mas de turistas, que visitem o nosso Alentejo e gostem, ou queiram apreciar a nossa cultura e ajudem à sua sustentação e salvaguarda.

Mário Eugénio
Cantador
Grupo Coral os Caldeireiros de S. João

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